A Origem

Assisti A Origem (Inception) na estréia e quase escrevi as minhas impressões sobre o filme na ocasião, mas não me empolguei pra isso. Hoje, revendo cenas e assistindo alguns extras a empolgação que faltava, enfim, chegou.

Primeiramente, os elogios.

O cast do filme está excelente. Leonardo DiCaprio está bem e convence no papel principal. Eu até desconfio que ele agora escolhe os seus roteiros lendo-os de trás pra frente e buscando alguma reviravolta nos últimos segundos (vide Ilha do Medo, 2010). Joseph Gordon-Levitt não lembra em nada o jovenzinho de 500 Dias Com Ela, Tom Hardy está hilário trazendo humor (necessário) ao filme, Marion Cotillard está linda e paranóica e Ellen Page continua ascendendo em sua carreira.

O visual do filme é belíssimo, nos levando de hotéis luxuosos a grandes geleiras sem causar estranheza. A grandiosidade das cenas servem para nos mostram que aquilo realmente é um sonho e tudo pode ser possível. Os efeitos especiais são um show a parte. A montagem é perfeita (e já é a minha aposta para o Oscar). E os efeitos sonoros são espetaculares (duas palavras: Hans Zimmer).  São U$160 milhões bem administrados.

Todo esse elenco, produção e efeitos de nada adiantaria sem uma boa direção, e isso Christopher Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas, 2008) faz bem. Todos os personagens são bem introduzidos e desenvolvidos ao longo dos quase 150 minutos da metragem.

Filmes com os sonhos como temática não são nenhuma novidade. Bons filmes com os sonhos como temática são uma raridade, tendo uma média de 2 ou 3 filmes bons por década. E A Origem pode ser encaixado nessa lista de bons filmes (não só sobre sonhos) da década.

Feitos os elogios, cheguei onde interessa: a história. Dom Cobb (DiCaprio) é um ladrão incomum: ele rouba segredos de suas vítimas através dos sonhos. Para isso, ele conta com sua equipe composta do extrator, o orientador, o falsificador, o arquiteto e o químico.

O problema é que existem regras que regem o mundo dos sonhos. Regras que são confusas de entender. Então como o público iria entender essas regras? Perguntando. Perguntando a quem? A quem entende desse mundo. Como? Através de algum personagem. Qual? Ariadne (Ellen Page). Ariadne é a novata (o espectador) e pergunta (quase) tudo que nós precisamos saber para entender como funciona aquele mundo.

Se já é difícil entender como as coisas funcionam no mundo dos sonhos (sou burro por ainda não entender como funciona aquele paradoxo?) imagina entender a proposta do filme: inserir uma idéia na cabeça de alguém através dos sonhos. Confesso que só entendi como isso aconteceria no momento em que aconteceu. Até então eu nem me importava mais com o motivo deles estarem ali, estava apenas curtindo o filme.

Quando estamos sonhando coisas estranhas acontecem. Tentamos correr e não conseguimos sair do lugar, o ambiente pode mudar repentinamente sem nem percebermos e as leis da física não são respeitadas (quem nunca voou num sonho?). Lembra que quando você era criança e sonhava com água você fazia xixi na cama? Isso acontecia por que você dormia com a bexiga cheia e seu cérebro te avisava através dos sonhos. Com isso, vamos entendendo que o ambiente influencia no sonho (e isso proporciona uma cena excelente no filme com o hotel sem gravidade).

Se eu mandar você não pensar em elefantes no que você vai pensar? Elefantes, não é? Mas a idéia não foi sua. Essa é a estratégia básica para inserção. Cobb e cia vão tentar fazer o jovem milionário Fischer (Cillian Murphy) acreditar que blá blá blá blá blá… não interessa. O que importa é que eles querem inserir uma idéia na cabeça do cara. Para isso, eles vão invadir um sonho que está dentro de um sonho que está dentro de um sonho que está dentro de outro sonho que está dentro de mais sonho. Confuso? Nem tanto.

Os sonhos são bem pontuados e característicos. A cidade comum, o hotel de luxo, a geleira, o mundo de Cobb e o limbo. Nível a nível, o grupo vai implantando idéias na mente do jovem Fischer. Começa com um número de telefone, o quarto do hotel, chegando num cofre e enfim no testamento (mas como eu disse, isso nem o interessante do filme).

O quinto sonho, ou o limbo, tem o seu ambiente introduzido logo no início do filme e é nele que Cobb tenta reconquistar a sua liberdade. Tudo isso seria relativamente fácil se não fosse por Mal (Cotillard), a falecida esposa de Cobb que é “a sombra” em seu consciente e tenta sabotar o plano a todo custo, alegando que ele não quer voltar para a realidade. Em poucas palavras, Mal é como Freddy Krueger, a maníaca dos sonhos.

O filme é bem fumado (o artefato que eles usam para invadir o sonho só deve ser compreendido por drogados). Dá pra viajar legal assistindo e discutindo sobre o filme. Entretanto, o filme é mais “pé no chão” que Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) e mais entendível/fácil que Vanilla Sky (Vanilla Sky, 2001), que aliás eu não entendi até hoje e me recuso a ler alguma possível explicação.

O final do filme ainda deixa alguns questionamentos. É tudo um sonho? Só o final é um sonho? O peão caiu? Esses são algumas coisas que ficam para ser discutidas.

Seria interessante se apenas o final fosse um sonho, mas algumas coisas mostram que pode ser muito mais, como as crianças que não envelheceram um dia nas cenas em que aparecem e a aliança de Cobb que some e aparece em seus dedos a cada cena. Entretanto, acreditar que todo o filme é um sonho seria um tanto quanto previsível, uma vez que já vimos coisa parecida em O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999) e até no último, e já citado, trabalho de Leonardo DiCaprio, Ilha do Medo.

Em minha nada humilde opinião, nem Nolan sabe o que é sonho e o que é realidade. Acho que ele apenas teve a idéia de mostrar o peão rodando e cortar antes que ele pudesse parar, abrindo espaço para essa discussão e fazendo com que as pessoas sintam vontade de voltar ao cinema para catar pistas e tentar desvendar essa mistério.

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